10/10/2015

É bíblico o batismo em nome de Jesus?

Por que os discípulos batizavam em nome de Jesus, como está descrito em Atos (At. 2.38; 8.16; 10.48 e 19.5), e não em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo, conforme a ordem de Cristo (Mt. 28.19,20)?

Com o ressurgimento de movimentos antitrinitarianos dentro e fora do adventismo, este e outros questionamentos tem sido levantados. Alguns, mais ardorosos defensores do batismo em nome de Jesus, chegam a questionar a canonicidade do evangelho de Mateus por ser ele o único a ensinar a fórmula batismal trinitariana. Para esses

movimentos dissidentes, a doutrina da Triunidade de Deus só foi adotada pela Igreja a partir do Concílio de Nicéia (325 dc), portanto a fórmula batismal foi alterada pela apostasia que se introduziu na Igreja. Neste texto nos proporemos a responder estas questões com um claro assim diz o Senhor.

Os pais da Igreja
Existem evidências históricas de que a Igreja batizava em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo muito antes do Concílio de Nicéia. Pelos escritos dos Pais da Igreja descobrimos que este costume remonta o mais primitivo período pós-apostólico. Um dos mais importantes documentos escritos nessa época é o Didaquê (“Ensino”). Ele é um antigo manual de religião que foi escrito entre o ano 90 e 100 dc, na época em que foram escritos os últimos livros do Novo Testamento (os escritos do apóstolo João).



A obra divide-se em três partes: a primeira (cap.1-6) ensina normas práticas para a vida cristã, a segunda parte (cap. 7-10) trata do culto da igreja e a terceira (cap. 10-15) procura regular a vida em comunidade. Na abertura da segunda seção, o autor ensina: “Quanto ao batismo, batizai assim: depois de ter ensinado tudo o que precede, batizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, cap. 7.1. Há uma clara dependência fraseológica entre o Didaquê e a passagem de Mt 28.19. Em um documento tão antigo quanto os escritos do apóstolo João encontramos referências ao batismo trinitariano.

No fim do segundo século, Taciano (170 dC) escreveu: “Então Jesus lhes disse: [...] Ide agora a todo o mundo, e pregai Meu evangelho a toda criatura; ensinai a todas as pessoas e batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.”  Um pouco mais tarde, Tertuliano (210 dC), afirmou: “Depois da ressurreição, Ele prometeu em um juramento a Seus discípulos que lhes enviaria a promessa do Pai; e, finalmente, os enviou a batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, não em um Deus impessoal.”

J. D. Kelly cita outros pais da igreja que defendiam o batismo trinitariano:

“Justino, falando dos que seriam batizados, diz: ‘[...] são conduzidos por nós a um local onde haja água, e ali, da mesma forma como nós fomos regenerados, são por sua vez regenerados. No nome de Deus Pai e Senhor de todas as cosias e de nosso salvador Jesus cristo, eles são lavados na água’. Mais tarde, ele acrescenta que o batismo é ‘em nome de Deus Pai e Senhor de todas as coisas’, de ‘Jesus Cristo, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos’ e ‘do Espírito Santo que, por intermédio dos profetas, predisse toda a história de Jesus’. Sem dúvida, ele tem em mente uma fórmula litúrgica que já estava solidificada, como mostra Irineu quando relata: ‘Nós recebemos o batismo para a remissão de pecados em nome de Deus Pai e em nome de Jesus Cristo, o Filho de Deus, que Se encarnou, morreu e ressuscitou, e no do Espírito Santo de Deus’.”

O que significa, então?
Se o costume da Igreja era batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, por que então Lucas menciona o batismo em nome de Jesus? Pelo número de referências bíblicas, a evidência parece pender para o último e não para o primeiro. Antes de chegarmos a conclusões precipitadas precisamos analisar as passagens envolvidas nesse debate. Uma leitura atenta destes versículos (At 2.38; 8.16; 10.48 e 19.5) permite-nos chegar as seguintes conclusões:

Em primeiro lugar não há uma formula batismal definida nestas passagens. Enquanto em Atos 2.38 e 10.48 diz que o batismo deve ser “em nome de Jesus Cristo”, em At 8.16 e 19.5 fala de batismo “em nome do Senhor Jesus”. Se houvesse uma formula definida para se batizar em nome de Jesus ela seria padrão e não haveria variantes. Lucas não quer ser tomado como literal ao afirmar que os apóstolos deveriam batizar em nome de Jesus.

Em segundo lugar, existe um princípio de interpretação bíblica muito desprezado e que tem sido fonte de muitas heresias. Qual é ele? Nenhuma prática mencionada na Bíblia,mesmo que tenha sido feita por Jesus, deve ser praticada pelos cristãos se não for amparada por um mandamento bíblico. Por não respeitar este princípio, os pentecostais ensinam que todo cristão que recebeu o Espírito Santo deve falar em línguas estranhas. O fato de que a Bíblia menciona pessoas que ficaram cheias do Espírito Santo e falaram línguas não torna isso normativo para o crente. A menos que houvesse uma afirmação doutrinária que convalidasse este ensino. Existe uma passagem bíblica que afirme que o sinal de que o crente está cheio do Espírito Santo é falar em línguas? Não, muito pelo contrário, Paulo ensina que os dons são dados de forma única aos cristãos e que nem todos manifestam a glossolalia (1Co 12.13, 29 e 10). Outro exemplo: não foi por que Jesus jejuou por 40 dias que devemos fazer o mesmo. Este mesmo princípio pode ser aplicado a questão do batismo em nome de Jesus. Lucas está fazendo referência a fatos históricos e não ensinando doutrina. Essa forma de batismo só seria legítima se fosse acompanhada de um mandamento bíblico. Onde está este mandamento?

Então, o que a Bíblia quer dizer quando afirma que a Igreja batizava em nome de Jesus? Chegamos ao cerne da questão. Toda pessoa familiarizada com a leitura bíblica sabe que existem expressões, práticas e costumes característicos dos tempos bíblicos que, sem considera o abismo cultural que nos separa daquela época, pode nos levar a conclusões equivocadas. As chamadas Testemunhas de Jeová cometem o mesmo erro neste ponto, ao afirmar que o “único nome de Deus” é Jeová. Para eles santificar o Seu nome (como Jesus ensinou na oração do Pai Nosso) é restaurar a pronuncia do tetragrama hebraico. Esse é o mesmo erro que os unicistas modernos cometem ao enfatizar o batismo em nome de Jesus. Esses grupos esquecem de se perguntar se nome, como era usado nos tempos bíblicos, tem o mesmo significado que tem hoje.

O Dicionário Bíblico Universal de Buckland explica o significado do termo “nome” para a cultura dos tempos bíblicos: “segundo a mentalidade antiga, o nome não somente resumia a vida do homem, mas também representava a sua personalidade, com a qual estava quase identificado. E por isso a frase ‘em Meu nome’ sugere uma real comunhão com o Orador Divino.”

Um nome poderia ser dado a pessoa com fatos que estivesse relacionado com o seu nascimento, como aconteceu com Jacó (cujo nome significa “suplantador”) que nasceu agarrado ao calcanhar do seu irmão. Quando Jacó mudou de caráter, mudou de nome também e passou a ser chamado de Israel (que significa “Aquele que lutou com Deus”). Veja Gn 32.27 e 28 e 35.10.

Vamos aprofundar a nossa análise com a leitura de várias passagens bíblicas que podem nos ajudar a entender esta questão x:

1. Crianças são recebidas em nome de Jesus: “Quem recebe uma destas crianças em meu nome, está me recebendo”, Mt 18.5.

2. Crentes reunidos em nome de Jesus: “Pois onde se reunirem dois ou três em meu nome, ali eu estou no meio deles”, Mt 18.20 (ver também 1Co 5.4).

3. Demônios são expulsos em nome de Jesus: “‘Mestre’, disse João, ‘vimos um homem expulsando demônios em teu nome e procuramos impedi-lo.’” Mc 9. 38 (ver também Mc 16.17; Lc 10.17 e At 16.18).

4. Curas são feitas em nome de Jesus: “Disse Pedro: ‘Não tenho prata e nem ouro, mas o que tenho, isso lhe dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, ande.’” At 3.6 (ver também At 4.10).

5. Somos feitos filhos de Deus em nome de Jesus: “Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito e se tornarem filhos de Deus.” Jo 1.12.

6. Orações são aceitas em nome de Jesus: “E eu farei o que vocês pedirem em meu nome, para que o Pai seja glorificado no Filho.” Jo 14.13 (ver também Jo 15.16 e 16.23).

7. O Espírito Santo é enviado em nome de Jesus: “Mas o Conselheiro, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, lhes ensinará todas as coisas e lhes fará lembrar tudo o que eu lhes disse.” Jo 14.26.

8. Perdão e arrependimento são anunciados em nome de Jesus: “E que em seu nome seria pregado o arrependimento para perdão de pecados a todas as nações, começando por Jerusalém.” Lc 24.47 (ver também At 10.43).

9. Batismo feito em nome de Jesus: “Pedro respondeu: ‘Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos seus pecados, e receberão o dom do Espírito Santo.’” At 2.38 (ver também At 8.16; 10.48 e 19.5).

10. Crentes são justificados em nome de Jesus: “Mas vocês foram lavados, foram santificados, foram justificados no nome do Senhor Jesus cristo e no Espírito de nosso Deus.” 1Co 6.11.

11. Graças são dadas em nome de Jesus: “Dando graças constantemente a Deus Pai por todas as coisas, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo.”

12. Joelhos se dobrarão em nome de Jesus: “Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho nos céus, na terra e debaixo da terra.” Fp 2.10.

13. Unção com óleo feita em nome de Jesus: “Entre vocês há alguém que está doente? Que ele mande chamar os presbíteros da igreja, para que estes orem sobre ele e o unjam com óleo, em nome do Senhor.” Tg 5.14.

Poderíamos continuar citando situações em que “o nome de Jesus” não está apenas relacionado com o batismo. Segundo o Dicionário Bíblico Adventista, nessas passagens nome “assume um significado mais amplo que o de identificar a um indivíduo; significa ‘pessoa’, ‘caráter’, ‘autoridade’, ‘reputação’, etc.” Por isso, o apóstolo Paulo disse que tudo o que os crentes fazem deve ser feito em nome de Jesus: “Tudo o que fizerem, seja em palavra ou em ação, façam-no em nome do Senhor Jesus, dando por meio dele graças a Deus Pai.” Cl 3.17. É claro que o apóstolo não está dizendo para usarmos uma fórmula mágica, com as palavras “em nome de Jesus”, mas está se referindo ao fato de que ao fazermos algo devemos fazê-lo na autoridade de Jesus.

Como Ellen G. White entendia o uso da expressão “em nome de Jesus”? Segundo ela “o nome de Cristo devia ser a senha, a insígnia, o laço de união, a autoridade para sua norma de prosseguimento e a fonte de seu sucesso. Nada devia ser reconhecido em Seu reino que não trouxesse Seu nome e inscrição.” AA 28.

Em At 4.7, os líderes religiosos de Israel perguntaram aos discípulos: “Com que poder ou em nome de quem vocês fizera isso?”. Eles queriam saber com que autoridade João e Pedro curavam. Nessa passagem, autoridade e nome são termos intercambiáveis.

Enquanto a fórmula batismal, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, está reservada ao batismo, a expressão “em nome de Jesus” permeia todas as ações do crente no Novo Testamento. O crente deve sujeitar os demônios em nome de Jesus, ou seja, por Seu poder. Quando pregamos devemos fazer apelos em Seu nome, também. O apóstolo implorou: “Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus.” 2Co 5.20 (ARA). Paulo está pedindo aos irmãos em Corinto que aceitem o perdão de Deus oferecido através de Cristo. Quando o apóstolo afirma que ao fim todo o joelho se dobrará perante o nome de Jesus está querendo dizer que reconhecerá o senhorio e a autoridade de Jesus. Portanto, a expressão “em nome de Jesus” é idiomática e deve ser assim entendida.

Fonte: Copiado de uma resposta em um debate de grupo do facebook

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